A medicina, o salário e os sorrisos

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No dia em que o primeiro ser humano na história se preocupou e tentou cuidar da saúde de alguém, provavelmente não se tinha descoberto a roda, provavelmente não se controlava o fogo, mas provavevelmente já existiam sorrisos e algum tipo de alegria. E foi justamente a falta desses sorrisos e dessa alegria, por algum problema de saúde, que provavelmente motivou o primeiro ser humano na história a cuidar da saúde de alguém e assim exercer minimamente algo que viria a ser chamado de medicina.

Hoje, nessa tal medicina nós sabemos que esse cuidado verdadeiro com a saúde de alguém, com a manutenção dos sorrisos e das alegrias, não é mais em geral o maior motivador do exercício médico. Hoje, a motivação é o status de ser médico. O próprio jaleco, um mero acessório de proteção individual, e o estetoscópio, um mero instrumento para ausculta cardíaca, se tornaram símbolos de poder. E por que será que ser médico hoje dá tanto status? E onde foi parar a essência do ato de cuidar?

A sociedade em que vivemos é uma sociedade onde o homem explora o próprio homem. Onde pessoas passam fome, vivem na miséria, para que haja o enriquecimento de uma minoria no mundo. O grande motivador das relações humanas é o dinheiro. Não há uma mínima preocupação, por exemplo, em se demitir funcionários e fazer com que mais pessoas fiquem sem empregos e tenham dificuldades em manter a própria sobrevivência e a sobrevivência da família se tudo isso fizer com que os lucros da sua empresa aumente e você se torne mais rico para futilizar a sua sobrevivência com carros do ano, grandes mansões e outras coisas que são supérfluas em comparação à grande miséria que existe hoje no mundo. A verdade é que o mundo está deteriorado, e nós temos culpa direta nisso.

É dentro desse contexto que se encontra hoje a medicina. O interesse não é verdadeiramente cuidar da saúde das pessoas. Cuidar da saúde das pessoas é simplesmente um meio para se conseguir muito dinheiro e, consequentemente, muito status. Hoje tem gente chamando pacientes de “clientes”. Hoje há uma preocupação em se atender bem meramente para se conquistar o cliente. A medicina está extremamente capitalizada. A saúde extremamente mercantilizada. Hoje, queremos recuperar o sorriso apenas de quem tem dinheiro para pagar por isso. Provavelmente o primeiro homem na história que se preocupou com a saúde de alguém, numa época onde não existia roda nem fogo, se preocuparia hoje com a situação em que vivemos.

Estamos vivendo uma época de grande evolução das tecnologias. E a medicina não foge a isso. Eletrocardiogramas, ressonâncias magnéticas, cirurgias a laser. Nos gabamos de termos uma medicina cada vez mais evoluída, com instrumentos cada vez mais de última geração, com técnicas de diagnóstico avançadíssimas. Mas devemos nos perguntar e responder com sinceridade: a quem tudo isso tem servido? Será que o objetivo dessas tecnologias todas é fazer a manutenção de sorrisos e alegrias? Tem muita gente que não consegue sorrir, por estar passando fome, e que nunca saberá o que é uma ressonância magnética na vida.

Eu faço um convite àqueles que se importam com o sorriso e a alegria das pessoas, que se identificam mais com o primeiro ser humano na história que se preocupou com a saúde de alguém do que com toda essa exploração que anda acontecendo no mundo. Ainda é possível ser médico na essência. É possível atuar na saúde pública, se dedicando aos sorrisos daqueles que mais precisam. É possível lutar para que o SUS, fruto de movimentos históricos, possa ser na prática o que ele é na teoria. É possível atuar nas comunidades mais carentes, visitando as casas daqueles que têm menos condições de se deslocar para procurar atendimento. É possível enxergar o jaleco e o estetoscópio como instrumentos de luta e não de status. É possível ser um profissional que faça algo que tenha sentido para o mundo.

Sejamos verdadeiramente grandiosos. A grandiosidade não está na condição financeira, no carro ou na mansão. A grandiosidade está na sua atuação no mundo enquanto ser humano que faz parte desse mundo. Sejamos tão grandiosos, ao ponto de evoluirmos em direção à pré-história, onde existiu um homem que pela primeira vez na história se preocupou com a saúde de alguém, num tempo em que não havia fogo, roda, jaleco, estetoscópio, mas existiam sorrisos e as pessoas se peocupavam com eles.

Texto escrito por Jean Prestes
Acadêmico do 3º período de medicina da UFS

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2 Respostas to “A medicina, o salário e os sorrisos”

  1. Aretha Machado Says:

    Que lindo, Jean. Parabéns. Nunca mais tinha lido coisas tão belas sobre a verdadeira essencia da medicina. Foi revitalizador ler esse texto, depois de tento estudas patologias e nomes de remédios.

  2. André Leite Says:

    Caramba velho, texto …ODA, vc escreve mto bem.
    De fato, muitas vezes o verdadeiro sentido da Medicina é ofuscado pelo status, uma pena q tantos médicos passam 6 anos ou mais na faculdade e nao sabem o q é exercer a Medicina.
    Meus parabens novamente e principalmente ao trecho: “Sejamos tão grandiosos, ao ponto de evoluirmos em direção à pré-história…” D+

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