Posts Tagged ‘hospital universitário’

Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço?

abril 25, 2010

Desde criança costumam nos ensinar, tanto em casa como nas escolas primárias, que devemos ter noções mínimas de higiene: lavar as mãos antes e depois das refeições, jogar o lixo nas lixeiras, sempre lavar as mãos após ir ao banheiro ou chegar da rua, etc. Durante toda a nossa via acadêmica, aprendemos que a falta de higiene pode levar o indivíduo e toda uma comunidade a sofrer sérios problemas de saúde, por transmissão direta e indireta de um alarmante número de doenças.

No entanto, apesar da prática de higiene nos parecer, de certa forma, óbvia e primária, a necessidade da higienização das mãos, por exemplo, é reconhecida também pelo governo brasileiro, quando inclui recomendações para esta prática no Anexo IV da Portaria 2616/98 do Ministério da Saúde, que instrui sobre o Programa de Controle de Infecções Hospitalares nos estabelecimentos de assistência à saúde no País.

Apesar da significativa importância da higiene, principalmente entre os profissionais e acadêmicos da área da saúde, nós, da Universidade Federal de Sergipe e que estudamos no Campus da Saúde – Prof. João Cardoso Nascimento Júnior, não vivenciamos na prática o que vemos exaustivamente na teoria.

No nosso cotidiano, nos deparamos com o mais variado número e tipo de patologias, cada uma com sua especificidade, gravidade e grau de contágio. Como norma básica, a lavagem das mãos seria imprescindível para evitar não só uma contaminação pessoal, como também uma transmissão em massa de inúmeros tipos de doença. No entanto, ao irmos aos banheiros nos deparamos com situações deploráveis de higiene sanitária.

Para nós, estudantes da área da saúde, já se tornou “normal” utilizarmos banheiros sem porta, sem papel higiênico, sem sabão, com poças de água pelo chão, sem descarga nos vasos sanitários, vasos sem tampa, mictórios quebrados e agora com a mais nova novidade: pias improvisadas com baldes!

Além de ser humilhante vivenciarmos tais condições diariamente, é revoltante ver a justificativa de muitos para isso: “É assim mesmo, você está numa FEDERAL!” ou então “Mas foram vocês mesmos (estudantes) que quebraram!”. Será que Universidade Pública é sinônimo de descaso e Estudante é sinônimo de vandalismo? Ao nosso ver, não.

Apesar de ter consciência de que uma parte desses problemas foi causada por algum(s) estudante(s) que têm o “espírito de destruição correndo nas veias”, o bom senso é fundamental na análise de que não se pode generalizar uma classe por ações pontuais de uma minoria sem ética e respeito pelo bem coletivo.

Como conseqüência disso, somos impedidos de utilizar alguns banheiros que certamente não foram construídos para uso exclusivo de funcionários. Na didática onde se encontra a biblioteca da saúde, por exemplo, existem 6 banheiros, sendo 3 masculinos e 3 femininos. Apesar do número de acadêmicos ser expressivamente superior ao número de funcionários que trabalham nesta didática, apenas 1 banheiro feminino e 1 masculino são disponibilizados para os acadêmicos (nas condições citadas anteriormente! ). E o banheiro da biblioteca e o que fica em frente ao auditório? Esses vivem trancados para que não tenhamos acesso.

Para evitar me estender mais, não entrarei em detalhes com relação aos banheiros do CCBS e das outras didáticas, pois quem aqui convive sabe que as condições são bastante semelhantes.

Fica no ar, portanto, um questionamento: o que justifica isso? Como admitir que em um campus da saúde nós vivenciemos práticas de transmissão contínua de doenças?

Será que a partir de agora devemos começar a dizer aos nossos pacientes “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.” ?

Texto escrito por Adriana Freitas
acadêmica do 6º período de medicina

Anúncios

MOBILIZAÇÃO ESTUDANTIL NO 6º PERÍODO – Estudantes fazem abaixo assinado denunciando as más condições no curso

abril 15, 2010

AULAS PRÁTICAS: SÓ NA TEORIA??

Nesta semana, concluímos nossa 4ª semana de aula do período letivo 2010/1. Fazendo as contas, já se passaram aproximadamente 22,2% do semestre letivo. Estando a quase ¼ do sexto período (que é a metade do curso), fiz algumas reflexões com alguns colegas de curso sobre como andam nossas “habilidades médicas” e percebi que a sensação de insegurança, principalmente com relação às habilidades práticas da medicina é algo bem comum. No entanto, muitos podem pensar ou até dizer “Ah, que besteira, ainda falta tanta coisa pela frente! Você só aprende mesmo depois que se forma!”, mas aí vem a minha pergunta: O que estamos fazendo na universidade então?

A profissão médica, dentre suas diversidades de áreas e especialidades, é eminentemente prática. Portanto, para que a Universidade propicie uma adequada graduação em medicina, nada mais óbvio do que oferecer um curso em que o ensino da prática médica seja algo fundamental.

No entanto, o que de fato nós temos?

Parando para analisar superficialmente os três primeiros anos de curso, o chamado ciclo básico, é possível nos lembrar de várias disciplinas em que a prática ficou só na teoria, como por exemplo, as aulas de neuroanatomia ditas como práticas, mas que foram eminentemente teóricas (apesar de terem sido realizadas dentro de um laboratório) e as aulas ditas práticas de Fisiologia Humana, em que seminários foram apresentados pelos alunos em salas de aula das Didáticas.

Quando chegamos ao HU, percebemos que as disciplinas nos fazem sentir uma grande proximidade da medicina em si e chega a hora em que efetivamente as práticas médicas se iniciam. O medo e a insegurança são companheiros permanentes por um bom tempo e aí ouvimos dos professores que só com a prática é que vamos deixar essa insegurança de lado e aprender de fato.

É aí onde mora o problema. Como andam nossas aulas práticas? Você está satisfeito(a) com o que está aprendendo nessas aulas?

Apesar de não estar nem um pouco satisfeita com as aulas práticas em geral (ou inexistência delas), o que me motivou a escrever este texto foi vivenciar, durante esta última semana, uma aula prática de Bases da Técnica Cirúrgica. Como o nome já explicita, as aulas práticas de uma disciplina como essa deveriam acontecer onde? Ou em um centro cirúrgico ou minimamente em um laboratório que simulasse as condições de um centro cirúrgico real. No entanto, a realidade dessas aulas na Universidade Federal de Sergipe é bem diferente. Mas por quê? Por acaso não temos um centro cirúrgico no HU? Até temos, mas infelizmente ele não oferece estrutura alguma para nos receber, enquanto estudantes. Da forma como está, realizar aulas práticas de Bases da Técnica cirúrgica significaria impossibilitar a realização de algumas cirurgias e aumentar consideravelmente o nível de infecção hospitalar.

Na impossibilidade de utilizar o local apropriado para dar suas aulas, os professores “se viram” como podem. Apesar de a Universidade estar dando início à construção de um novo curso de medicina em Lagarto, ela diz não ter condições de nos oferecer locais apropriados para nossas aulas práticas. =/

Nesse contexto, minha turma teve uma “aula prática” em um ambulatório minúsculo, com dez estudantes amontoados, sentados na maca e em cadeiras trazidas de outros ambulatórios e com o professor apresentando os slides da aula em seu próprio notebook, pois nem espaço para projeção em datashow havia. O mais interessante, é perceber que temos aulas práticas de “faz de conta”, pois além de o professor ficar mostrando nas fotos dos slides os utensílios ideais, os centros cirúrgicos ideais, a higiene ideal, etc., nós não temos a oportunidade de vivenciar isso na prática.

Apesar de o tema da referida aula ter sido Técnicas Assépticas, tínhamos disponível uma pia totalmente inadequada para o nosso aprendizado, além de praticamente nenhum material disponível para o treino das nossas habilidades. Resumindo: Mais uma vez tivemos aula teórica de “como se faz na prática”.

Quem estiver lendo esse texto, deve estar se perguntando: E por que você resolveu escrever tudo isso agora?

A resposta é simples: Porque tem muita gente na nossa universidade dizendo que temos um curso de ótima qualidade! Qual a maior prova disso? Nossa universidade está simplesmente DUPLICANDO o número de vagas em medicina e CONSTRUINDO um novo Pólo na cidade de Lagarto!

E nós, o que achamos disso?

“Ah, vai ser bom porque mais gente vai poder ingressar na faculdade!”

Será? Você gostaria de entrar em um curso que não tem NADA construído?

Se nós, que estamos em um curso construído há décadas, já estamos com diversos problemas que a Universidade diz não ter condições de solucionar, como serão as condições de aprendizado dos nossos futuros colegas de Lagarto? Melhores que as nossas? Porque se forem iguais, já estará sendo bem ruim.

Texto escrito por Adriana Cardoso Freitas, estudante do 6º período de medicina da UFS e membro do Coletivo “Seja Realista: Peça o Impossível”.

OBS: As assinaturas para a carta ser enviada à chefia do Departamento de Medicina da UFS estão sendo recolhidas para incluir as reivindicações como ponto de pauta na reunião do departamento de medicina, que acontecerá dia 03 de MAIO.