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O que a precariedade das aulas práticas do curso de medicina na UFS tem a ver com a falta de câmeras nas aulas de fotografia dos cursos de comunicação e com a desigualdade social?

abril 25, 2010

Inicialmente pode parecer que são problemas pontuais, cada qual pertencendo ao seu âmbito especial. O problema das más condições (ou até mesmo ausência) das aulas práticas de medicina são problemas do curso de medicina da UFS, institucionalizado no DME. A falta de câmeras fotográficas para o curso de comunicação é um problema da alçada do curso de comunicação. Já a desigualdade social é meramente um problema do governo. Por essa lógica, inevitavelmente surge aquela batida pergunta:

O que diabos, eu, estudante, tenho a ver com isso?

A resposta para isso pode vir de uma outra pergunta: será que as coisas são tão independentes assim?

Nós temos o costume de analisar as coisas fechadas em si mesmo, sem buscar profundamente a origem delas, sem comparar diversos aspectos de coisas que parecem diferentes mas às vezes fazem parte do mesmo universo. Isso nos leva a imaginar que os fatos são sempre isolados. Mas na verdade as coisas se interseccionam muito mais do que podemos imaginar.

Antes de tentarmos analisar, por exemplo, o porquê de as aulas práticas de Bases da Técnica Cirúrgica estarem sendo ministradas em um ambulatório minúsculo, onde estudantes assistem às aulas amontoados, sentados nas macas, onde não há sequer espaço para projeção de slides etc, devemos nos atentar para o fato de que a disciplina Bases da Técnica Cirúrgica está inserido em um contexto maior, junto com outras disciplinas, que é o do curso de medicina. O curso de medicina por sua vez, junto com vários outros cursos, está inserido na Universidade Federal de Sergipe. A UFS, adentrando o grupos das universidades brasileiras, está inserida dentro da sociedade em que vivemos. E será que podemos ignorar esses aspectos? Eu acho que não.

Vivemos em uma sociedade regida pelo sistema capitalista. Isso não é novidade pra ninguém. Mas nunca é demais relembrar que tal sistema é extremamente opressor, que tem como o objetivo o lucro e o consegue através da exploração da classe trabalhadora, que tem como controlador das relações o mercado. É um sistema excludente e que gera desigualdade social, que gera fome, miséria. Um sistema injusto, onde não há igualdade nem liberdade. E pra quem acha viagem demais analisar as coisas partindo dessa óptica, vamos descendo o aviãozinho pra ver onde ele pode pousar.

A realidade das universidades brasileiras hoje é uma realidade totalmente inserida nessa lógica do sistema capitalista. A universidade não tem sido socialmente referenciada. As pesquisas não são feitas com base nas necessidades da população. Quase não há extensão. A universidade não tem servido ao povo. Toda a formação visa o mercado de trabalho. O curso de medicina não forma médicos que atuem em conjunto com outros profissionais da saúde para atuação no SUS (que, lembrando, é o sistema de saúde que nós adotamos no Brasil, que possui aspectos extremamente positivos, como a possibilidade de permitir saúde acessível universalmente à população e de onde toda a precariedade tão explicitada na mídia vem boa parte pelo não cumprimento na prática do que o SUS é na teoria). Mas pelo contrário, nós estudantes de medicina nos formamos tendo repulsa ao Sistema Único de Saúde e já pensando em nos especializar e montar nosso próprio consultório sem nos questionarmos se de fato saúde deveria ser uma mercadoria a ser vendida. Os estudantes de Comunicação são formados para trabalhar em grande empresas que detêm o poder dos veículos de comunicação e compõem o grande poder hegemônico manipulador da mídia. E é assim que todos os cursos nas universidades são encarados. Na mesma lógica opressora, egoísta e exploradora do capitalismo.

Descendo mais um pouco o avião e pousando na nossa querida Universidade Federal de Sergipe, a gente percebe que tal lógica se consolidou ainda mais com a aprovação do REUNI em 2007. O REUNI – Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades – mereceria uma análise totalmente a parte, mas tentaerei me deter aos pontos principais. Embora o REUNI pareça algo bom, numa análise precoce, por expandir a universidade, aumentar o número de vagas fazendo com que mais pessoas tenham acesso ao Ensino Superior, precisamos nos perguntar inicialmente: que universidade é essa e pra onde tá indo essa expansão?. Me deterei a explanar o objetivo principal do REUNI e suas duas grandes metas.

  • Objetivo do REUNI: criar condições para a ampliação do acesso e permanência na educação superior, utilizando-se do melhor aproveitamento da estrutura física e dos recursos humanos atualmente existentes nessas instituições.

Criar condições, ampliar, permanência, melhor aproveitamento. São expressões que nos levam a ter uma avaliação positiva sobre essa reforma. Porém, analisando com cuidado, percebemos a contradição principal de tudo isso. O REUNI se propõe a expandir a universidade, porém APROVEITANDO A ESTRUTURA FÍSICA ATUAL E OS RECURSOS HUMANOS EXISTENTES. E será que a nossa estrutura física já dá conta da quantidade de estudantes que nós temos? Será que já temos uma quantidade de professores suficientes? Eu acho que não. E aí é possível perceber que a tal “ampliação” na verdade é uma deterioração total da universidade. Toda a precariedade é mantida e mais estudantes são colocados dentro dessa precariedade. Todo o problema só piora.

E as metas do REUNI só quantificam o seu objetivo de deteriorar a universidade:

  • Aumento de quase 100% do número de alunos por professor na graduação, atingindo a média de 18 alunos por docente.

Não bastasse o fato de não termos professores o suficiente para dar conta do ensino, da pesquisa e da extensão na universidade, há ainda a meta de aumentar ainda mais o número de alunos por professor.

  • Ampliação da taxa de conclusão nos cursos de graduação para 90% em média.

Tal meta deixa clara a falta de preocupação com a qualidade da formação do estudante e o objetivo unicamente de aumentar a “linha de produção” da universidade, fazendo com que cada vez mais estudantes entrem nela e saiam cada vez mais rápido para serem jogados dentro do mercado de trabalho.

Ninguém, eu acredito, seja contra a expansão das universidades. o problema é que não está havendo uma expansão de fato. Não se fala em Assistência Estudantil e em como os estudantes ingressantes podem se manter dentro da universidade. A ampliação da universidade deve ser feita de maneira não só quantitativa, mas também – e principalmente – qualitativa. Mas o REUNI é claramente um programa que visa a geração de números. Aumentar as porcentagens de ingressos na universidade, a porcentagem de graduados, sem minimamente se preocupar com a formação desse profissional. Então novos cursos de Comunicação são abertos, mais estudantes acessam o curso, mas que curso é esse onde existem apenas três câmeras fotográficas para aproximadamente 300 estudantes que cursam a matéria Fotografia? E o curso de Educação Física, que tem aulas de natação na sala de aula, usando-se o QUADRO. Será que todos esses problemas não estão interligados?

Se você ainda está tendo dificuldade de visualizar, vamos aumentar o zoom e chegar finalmente no curso de medicina da UFS. Eu faço uma pergunta simples: nossa formação tem sido a ideal? Nossa estrutura é a ideal? Nosso quadro docente é o ideal? Vários aspectos mostram que não. A situação das aulas práticas no HU (vide textos escritos por Adriana Freitas e publicados no blog do coletivo) e mesmo no Básico (como são as aulas “práticas” de fisiologia e neuroanatomia, por exemplo?) deixam bastante claro o quanto nosso curso de medicina precisa urgentemente de melhorias. Não obstante esse fato, nos deparamos com a abertura de UM NOVO CURSO DE MEDICINA no Campus de Lagarto? Você nunca parou pra se perguntar sobre isso? Se perguntar se o nosso curso já é assim tão perfeito pra um totalmente novo ser aberto em outro campus. Mais uma vez, ninguém é contrário a idéia de se expandir o curso de medicina para o interior de Sergipe. O problema é sempre a maneira como as coisas são feitas. Você também não se perguntou se esse novo curso de medicina em Lagarto será de fato um curso ideal? Ou será que, não bastasse um, teremos agora dois cursos de medicina com problemas. Se nunca se perguntou, comece a se perguntar, companheiro, pois se você resistiu e chegou até esse momento do texto, já deve estar sendo capaz de interligar os problemas do curso de medicina, com outros cursos, com a UFS, com a realidade das universidades, com o REUNI, com o sistema capitalista.

Então, colegas, é impossível isolar os problemas e as contradições nas quais diariamente nos encontramos. É preciso buscar a raiz verdadeira de cada problema. Nosso curso de medicina tem problemas pelo mesmo motivo que a galera de Comunicação. Tais problemas estão sendo ampliados pelo REUNI, que não foge de toda o sistema que “organiza” a sociedade em que vivemos.

Por fim, faço um apelo para que nós, estudantes, nos identifiquemos enquanto um grupo que deve resistir e lutar por melhorias nos nossos cursos, na nossa universidade e, por que não, não nossa sociedade. Pressionar os departamentos e outras instâncias burocráticas da universidade para que possamos ter condições ideais de ensino, pesquisa e extensão, mas sabendo que essa luta pontual não é o suficiente para mudar todo o sistema educacional do país. Precisamos no mobilizar e protestar, através de abaixo-assinados, atos ou simplesmente com a nossa voz dentro das salas de aula e dos outros espaços da universidade.

E que a universidade possa se pintar de povo!


Texto escrito por Jean Prestes
acadêmico do 3º período do curso de medicina da UFS