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Mau olhado sobre o SUS

abril 1, 2010

Texto escrito por Flávio Cardoso Arcângelis*

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Quando  você  pensa  em  SUS,  qual  a  primeira lembrança  que  lhe  vem  à  mente? Provavelmente você deve se  lembrar do  lado ruim  do  SUS:  filas  de  esperahospitais  lotados  e sucateadosfalta  de  remédiosdificuldade  para  se realizar um exame e a demora no recebimento de seu resultado, além do tempo de espera para se conseguir uma consulta. De fato, todos esses são problemas que ainda  não  superamos, mas  será  que  o SUS  é  apenas isso?

Pense um pouco. Quantas vezes você viu nos jornais televisivos reportagens que divulgavam o lado bom do SUS? Certamente divulgam-se muito mais as suas  dificuldades  do  que  suas  virtudes.  Há  anos  a mídia  de  massa vem  o  identificando  com  suas deficiências  e  o  afastando  de  suas  melhores qualidades. Só para citar um exemplo, a mídia passou dias cobrindo o drama vivido pela estudante Eloá – a garota  que  foi  assassinada  pelo  ex-namorado  em Santo  André,  São  Paulo  –  e  muitos  foram  os momentos  em  que  ela  poderia  ter  divulgado positivamente o SUS, mas em nenhum momento o fez. Enquanto  ela  apenas  divulgava  de  modo sensacionalista  a  forma brutal  como  a  garota  foi morta,  o  SUS,  através  do  ‘Sistema  Nacional  de Transplantes’, trabalhava  para  que  cada  órgão  da menina  fosse  doado  para  salvar  outras  tantas  vidas, mas  isso  nunca  foi  mostrado.  Só  no  ano  de  2007, foram  realizados  mais  de  12  mil  transplantes  de órgãos pelo SUS – você sabia? Além desse programa, existem  outros  que  são  referências  mundiais.  É notório  o  reconhecimento  mundial  do  ‘Programa Nacional DST e AIDS’ que concede assistência integral e totalmente gratuita a todos os portadores do HIV e doentes de AIDS. Isso tudo é SUS! É a prova de que ele já está dando certo.

Mas  o  SUS  tem  ainda  grandes  adversários que não  querem  que  ele  dê  certo.  São  os  mesmos inimigos  do  povo  que  controlam  os  meios  de comunicação e  mostram  apenas  as  dificuldades  do sistema. A mídia  hegemônica  –  jornais  e  revistas  de grande circulação, a  televisão e o  rádio –  é a grande responsável  pela  criação  dessa  imagem  negativa. Desde sua criação,  ela serve aos  interesses da classe dominante  e,  portanto,  só  produz  pensamentos  que perpetuam  a  manutenção  do  poder  pela  elite dominante. Esse  massacre  da  desinformação promovido  pela mídia  elitista mantém  na  sociedade brasileira  um  momento  de  profundo desconhecimento  de  causas.  Na  área  da  saúde não poderia ser diferente.

O  SUS  foi  concebido  há  cerca  de  20  anos  e desde  então  sofre  fortes  ataques  da mídia  burguesa exatamente  porque  ele  pretende  ser  um  sistema  de saúde revolucionário.  As  bases  desse  sistema  são fundamentadas  em  princípios  éticos  e  de  inclusão social que não interessa à elite brasileira. O princípio da  universalidade garante  o  direito  de  que  todos  os cidadãos brasileiros possuam  acesso aos  serviços de saúde  de  modo  gratuito,  independentemente  de qualquer  tipo de contribuição previdenciária. Ele é o avesso  do  que  quer  a  elite  que  está  acostumada  a sempre auferir grandes  lucros da parcela mais pobre da população.

O processo histórico pelo qual  foi concebido o  SUS  não  deixa  restar  dúvida  sobre  o  seu  caráter transformador  da  saúde  brasileiraAté  a  década  de 1990 tínhamos  um  serviço  de  saúde  que  excluía  a maior  parte  da  população  brasileira.  Naquela  época somente tinham acesso aos serviços de saúde aqueles que  estivessem  dentro  da  esfera  trabalhista  ou  que pudessem  pagar  por  serviços  privados,  ou  seja,  os trabalhadores  com  carteira  assinada ou a  parcela mais  abastada  da  população.  É  a  retomada  dessa lógica  de  saúde  privatista  onde  tudo  se  paga  que  é defendida pela grande mídia.

E  isso  não  é  difícil  de  perceber  quando entendemos  que  ela  é  controlada  pela  mesma oligarquia  que  também  controla  toda  a  saúde privada.  Observe  as  propagandas  das  TVs  e  dos grandes jornais, você perceberá que grande parte dos anúncios  veiculados  são  da  indústria  de medicamentos, dos planos de saúde, das corporações médicas,  da medicina  de  grupo,  enfim,  de  toda  a saúde  que  só  funciona  na  lógica  privada.  E como “quem  paga  a  banda  escolhe  a  música,  os anunciantes que  financiam os meios de comunicação também dão a linha política a ser divulgada. A idéia é denegrir a imagem do sistema de saúde público para convencer  as  pessoas  de  que  o  sistema  privado  é melhor, sem qualquer discussão sobre assunto.

Se  você  é  usuário  de  algum  plano  privado deve estar se perguntando: o que eu tenho a ver com isso e por que defender o SUS? Pois bem, se você fez essa opção deve ser por que o sistema público ainda não  funciona  como  deveria  e  porque  tem  condições financeiras para  tanto. No  entanto,  certamente,  você não  deve  estar  satisfeito  com  a  idéia  de pagar impostos  para  não  receber  serviços  de  saúde  em troca e, paralelamente, pagar altas mensalidades para ter  um  plano  que,  ainda  por  cima,  tem  várias limitaçõesimpõe  inúmeras  dificuldades,  deixando muito  a desejar. É uma  grande  ilusão pensar  que os planos  de  saúde privados  que  atendem  apenas  uma pequena  parcela  da população brasileira  prestam serviços de qualidade. Além de custarem os olhos da cara, muitas  vezes  negam  atendimento  quando  o cidadão  mais  precisa:  deixam  de  fora diversas cirurgias,  medicamentos,  exames  de  alta complexidade  e  dificultam  o atendimento  a  pessoas idosas, pacientes crônicos e portadores de patologias e deficiências.

O SUS está cotidianamente em nossas vidas e, muitas  vezes,  sequer  nos  damos  conta disso. Diferentemente  dos  planos  de  saúde,  ele  oferece muito mais  do  que  o  acesso apenas  aos  serviços  de saúde  diretos,  como  consultas e exames. Só para se ter uma  idéia, ele é responsável por  toda a execução das  ações  de  vigilância  epidemiológica  e  sanitária, bem  como  as  de  saúde  do  trabalhador.  Na  prática, apenas para  citar  alguns exemplos, os programas de combate à dengue, as vacinações que já erradicaram doenças como varíola  e  poliomielite  além  de controlarem  a  tuberculose, o tétano  e  sarampo, também são ações do SUS. Além disso, compete à ele a  execução  das  ações  de  vigilância  sanitária de fiscalização  e  inspeção  de  alimentos,  bebidas  e  água para consumo humano, controle  de  sangue  e hemoderivados,  registro  de  medicamentos,  entre tantas outras ações.  Isso tudo  também é o SUS, você sabia?

Como  você  pode  ver,  o  SUS  está  bem  mais próximo  de  você  do  que  parece.  Mas  a população brasileira  que  vem  sofrendo  um  massacre  de desinformação pela mídia, ainda não se conscientizou de que o SUS  representa a maior política de inclusão social  e distribuição  de  renda  do  país. A  freqüente exposição  das  mazelas  do  sistema  de  saúde  que  é feita sob a lógica burguesa que inferioriza tudo o que é público de modo absolutamente parcial e alienado para  justificar  a  superioridade  aparente  do  privado faz  com  que  o  SUS  seja  identificado  apenas  com aquilo que  lhe  falta. É por  isso que se  faz necessário que  reafirmemos  sempre  suas  conquistas. É  preciso que  rompamos  com  essa  lógica  para  conseguirmos efetivar,  na  prática,  aquilo  que  em  muito  já avançamos  no  campo  legal,  a  fim  de  que  possamos garantir que, de fato, a saúde seja um direito de todos e um dever do Estado.

*Flávio  Cardoso  Arcângelis  é membro  do  Diretório  Acadêmico  de
Medicina  da  UNIVASF  (DAMUNI)  e  acadêmico  do  6º  período  do
curso de medicina.

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