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Aulas práticas: aprendendo a brincar de faz de conta

abril 15, 2010

Aracaju, 14 de abril de 2010.

À chefia do Departamento de Medicina

Caro Prof. Dr. Alex Vianey,

Segue abaixo um texto escrito para publicação no blog www.sejarealista.wordpress.com e que apresenta alguns dos problemas vivenciados pela turma do 6º período de medicina.

AULAS PRÁTICAS: APRENDENDO A BRINCAR DE “FAZ DE CONTA”

Final de férias: época de aproveitar os últimos momentos de curtição, de descanso e de fazer tudo aquilo que não temos a oportunidade de fazer quando estamos em aulas. É, também, a época em que começamos a nos preparar para o novo período que se inicia, portanto, entramos em contato com colegas mais experientes do curso, tentamos conseguir materiais e buscamos avidamente saber como será o novo semestre. Durante esse processo, muito ouvi acerca da “fama” do 6º período: uns dizem que é um dos piores, outros dizem que é apenas cansativo pelo grande número de provas, mas o comentário mais freqüente foi o de que este é o período em que começamos, de fato, a viver o curso de medicina.

Ao fazermos a matrícula, sentimos que o período realmente será bem diferente dos anteriores, pois além de termos disciplinas voltadas para algumas especialidades médicas, temos uma grade curricular com um expressivo número de aulas práticas. Apesar de ser inicialmente assustador pensarmos que iremos aprender Imaginologia, Bases da Técnica Cirúrgica, Anestesiologia, Otorrinolaringologia, Oftalmologia, Saúde Coletiva III e Introdução a Psicopatologia em apenas quatro meses de aula, começamos o semestre com sede de aprender.

No entanto, o período letivo se inicia e logo começam as frustrações. Na primeira semana de aula, não tivemos aulas práticas da maioria das disciplinas teórico-prática com a justificativa de que “é ilógico ter aulas práticas sem ter tido uma aula teórica anteriormente”. Por mais que esse argumento tenha convencido a muitos, gostaria de lembrar que ao se realizar as aulas práticas dessas mesmas disciplinas em um momento posterior, o conteúdo exposto foi totalmente INDEPENDENTE da aula teórica ministrada anteriormente.

A primeira semana passou e, assim como ela, as demais se passaram de forma bem rápida. Hoje estamos chegando à praticamente 25% do semestre letivo, e impressionantemente ainda não tivemos aulas práticas de algumas disciplinas. Quais os motivos para isso estar acontecendo?

Diversas são as justificativas dadas pelos nossos professores, mas o FATO é que com a conclusão de praticamente ¼ do sexto período, vivenciamos o seguinte quadro:

DISCIPLINAS SITUAÇÃO DA TURMA DO 6º PERÍODO ATÉ O PRESENTE MOMENTO
IMAGINOLOGIA 0 (zero) aulas práticas
BASES DA TÉCNICA CIRÚRGICA Todas as aulas foram ministradas, embora SEM ESTRUTURA ADEQUADA para o ensino da prática.
SAÚDE COLETIVA III 0 (zero) aulas práticas
DISCIPLINAS SITUAÇÃO DA TURMA DO 6º PERÍODO – HORÁRIO SUGESTÃO 3 – ATÉ O PRESENTE MOMENTO
OTORRINOLARINGOLOGIA 1 aula prática (uma apresentação de como serão as práticas e uma revisão de propedêutica otorrinolaringológica)
OFTALMOLOGIA 1 aula prática (com apresentação dos aparelhos – desligados)

Levando-se em consideração que a medicina é uma profissão predominantemente prática, e que a universidade é o espaço em que somos, pelo menos teoricamente, preparados para atuar como médicos(as), o que justifica tamanha deficiência no ensino das nossas habilidades práticas?

Até quando a nossa universidade vai continuar fazendo de conta que está tudo indo muito bem (afinal, estão abrindo um novo pólo da saúde em Lagarto e duplicando as vagas em medicina!) enquanto passamos por tantos transtornos?

Até quando nós, estudantes, iremos ser coniventes com essas situações?

Apesar deste texto relatar a experiência pontual de algumas situações desagradáveis referentes ao sexto período, eu questiono: Problemas dessa natureza estão ocorrendo nos demais períodos?

Os estudantes do nosso curso estão 100% satisfeitos com as aulas práticas que estão tendo? (ou não tendo, no caso!)

Sei que para muitos é um alívio saber que não vai haver aula e poder ir para casa mais cedo, mas para estes, gostaria de lembrar que quando não soubermos agir corretamente com nossos pacientes por insegurança e carência de habilidades práticas, ninguém vai estar preocupado se tivemos problemas com a disciplina X ou Y. Nós teremos a obrigação de saber como agir!

Muitos devem estar se questionando sobre a necessidade da exposição de tais problemas e é aí que eu gostaria de fazer um alerta: Se nós, que estamos sendo diretamente prejudicados com diversas situações que atrapalham o nosso aprendizado no curso, não nos manifestarmos contra esses descasos, estaremos sendo coniventes e consentindo que tal situação se perpetue, prejudicando não só a nós mesmos, como a todos que virão depois ocupar o nosso lugar e ouvirão o mesmo que nós sempre estamos ouvimos: “Se acostume!” ou “É assim mesmo! Não tem jeito!”

Será que não tem jeito mesmo?

Talvez sim. Enquanto continuarmos fazendo de conta que estamos aprendendo e nossa universidade continuar sendo conivente com a brincadeira de faz de conta que tem um ótimo ensino enquanto, repito, se propõe a construir um novo curso de medicina, realmente nossas aulas práticas e nosso ensino de qualidade ficarão cada vez mais no “faz de conta”.

No entanto, se decidirmos por expor nossas situações diariamente e por cobrar por melhorias reais na qualidade do nosso ensino, aí sim seremos capaz de evitar que essa brincadeira sem graça se transforme definitivamente em uma nova brincadeira: a do “Era uma vez…”.

Texto escrito por Adriana Cardoso Freitas

Acadêmica do 6º período de medicina da UFS

Membro do Coletivo “Seja Realista: Peça o Impossível”

Acadêmicos que se sentem contemplados com as reivindicações acima explicitadas:

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OBS1: As assinaturas para a carta ser enviada à chefia do Departamento de Medicina da UFS estão sendo recolhidas para incluir as reivindicações como ponto de pauta na reunião do departamento de medicina, que acontecerá dia 03 de MAIO;

OBS2: As imagens e as cores foram utilizadas para enfeitar o post. Não estão presentes na carta original.

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